Fonte: Folha São Paulo 10/04/09
As interrupções no tratamento de radioterapia, em razão da quebra ou manutenção de aparelhos ou de feriados prolongados, prejudicam o controle do câncer e diminuem as chances de cura, sugerem novos estudos internacionais. No caso de tumores de cabeça e pescoço, por exemplo, prolongar a radioterapia em mais de dez dias -para compensar uma interrupção anterior- causaria uma redução de 10% a 20% na taxa de sobrevida em cinco anos, segundo pesquisa citada em um trabalho inédito publicado na revista "Radiologia Brasileira" no ano passado. O estudo acompanhou 560 pacientes com câncer por um ano e demonstrou que 62,5% tiveram o t ratamento interrompido, por uma média de um dia e meio, em razão da manutenção dos aparelhos. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), 60% dos pacientes com câncer vão precisar da radioterapia -tratamento que usa radiação para destruir ou controlar o crescimento de células cancerosas. No Brasil, a discussão sobre o impacto das interrupções deve ganhar força neste ano. O Inca (Instituto Nacional de Câncer) pretende instituir um "selo de qualidade" na radioterapia que, entre outras questões, tratará das paralisações na terapia. O estudo alerta para o fato de que, no país, alguns serviços fecham por quatro ou cinco dias seguidos, em feriados prolongados. "Isso é bastante comum e raramente esse intervalo é compensado", avalia a enfermeira oncológica Sylvia Suelotto Diegues, uma das autoras. Estudos internacionais mostram que interrupções -por menores que sejam- ou prolongamentos não esperados no tratamento podem prejudicar o controle da doença e diminuir as chances de cura de tumores de cabeça e pescoço, pulmão, bexiga e próstata, por exemplo. Segundo Diegues, o país não conta com uma metodologia eficiente para calcular as interrupções e seu impacto. "Nenhum serviço admite uma taxa [de interrupção] acima de 50%. Dizem que têm 5%, mas isso é irreal. Na verdade, eles não fazem ideia de como se mede isso", diz ela, que entrevistou vários serviços para o seu mestrado na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Os tratamentos convencionais de radioterapia são, em geral, administrados em cinco sessões semanais, realizadas de segunda a sexta-feira, por um período de duas a oito semanas de forma ininterrupta. "Em câncer de cabeça e pescoço, o impacto das interrupções é maior. Para cada dois dias que o paciente para desnecessariamente, perde 1,4% na taxa de cura", afirma. Segundo Diegues, em geral, os médicos "querem ignorar" o impacto das manutenções preventivas no tratamento. Para ela, o problema é que muitos serviços brasileiros só têm um aparelho, e quando têm dois, já estão superlotados. "Está tudo errado. O paciente chega tarde ao serviço, demora para conseguir radioterapia. E aí o aparelho para no feriado prolongado. No fim, já furou tudo."
Margem de segurança Na opinião de Carlos Araújo, presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia e chefe do serviço de radioterapia no Inca, há uma margem de segurança no tratamento, seja de tempo, seja de dose. "Se eu vou fazer um tratamento de cinco semanas é porque eu posso fazer em quatro semanas e meia ou em cinco semanas e meia." Araújo diz que há fórmulas matemáticas que calculam a correção na dose para compensar a parada do tratamento. "Só em intervalos muito longos há perdas importantes." Mas ele admite que, embora existam normas quanto às correções do tratamento diante de uma interrupção, nã o há fiscalização para ver se elas são, de fato, cumpridas. De acordo com Araújo, há perdas muito importantes no tratamento de radioterapia em casos de câncer de colo de útero porque a braquiterapia (implante de sementes radioativas) foi restringida pelo governo federal para ser feita somente em centros de alta complexidade. "Por conta disso, as pacientes que precisavam fazer o tratamento em 57 dias estão fazendo em 180. Essas pessoas estão perdendo chances de cura", afirma o médico. |